1    DOIS TEMAS E SUA ORIGEM: 1968-1972 (EXPOSIÇÃO)

1.1 Segurança e modelos probabilistas (Tema 1)

1.2 Alternância dos dois temas (Ponte modulante)

1.3 Modelos matemáticos e processos numéricos (Tema 2)


1.1 Segurança e modelos probabilistas (Tema 1)

Como se admite que a sistematização crítica seja limitada a parte da obra do candidato, um dos primeiros problemas que se apresenta é o da delimitação da parte que será discutida. No meu caso, é inegável que a porção fundamentada em esforço mais significativo de pesquisa está nos textos sobre segurança e modelos probabilistas. Meus dois trabalhos acadêmicos de maior fôlego, a dissertação (Pasta 1, Azul 43) e a tese (Pasta 1, Azul 44), versaram sobre esses temas. Nada mais natural, portanto, do que privilegiá-los -- e os trabalhos que deles derivaram.
 

O meu interesse pela segurança das estruturas, e particularmente das geotécnicas, nasceu de forma extremamente simples e facilmente explicável: foi inteiramente estimulado pelo Prof. Décio de Zagottis. Como será discutido adiante, sem ele eu provavelmente não teria enveredado por esse caminho, que me abriu perspectivas de desenvolvimento intelectual extremamente estimulantes.

1.2 Alternância dos dois temas (Ponte modulante)

Por outro lado, eu nunca pretendi ser um pesquisador por excelência: para que eu me sinta realizado no meu dia-a-dia, a pesquisa sempre terá que compartilhar o meu tempo harmoniosamente com o ensino, que reputo atividade das mais nobres e gratificantes, e também com o exercício profissional da Engenharia Civil.
 

Assim sendo, eu jamais me sentiria satisfeito se esta sistematização, ainda que assumidamente parcial, deixasse de lado uma faceta do meu perfil vocacional que eu considero tão essencial quanto a primeira: a dos modelos matemáticos e dos processos numéricos, que aparecem em diversos trabalhos meus, porém mais ligados ao ensino e à prática profissional do que propriamente à pesquisa.
 

Esses dois temas sempre caminharam paralelamente, alternando-se temporariamente no meu interesse e é por isso que alternadamente serão aqui apresentados os trabalhos decorrentes.

1.3 Modelos matemáticos e processos numéricos (Tema 2)

O meu interesse pelos modelos matemáticos era algo latente, possivelmente até genético. Meu pai sempre contava que gostava tanto de Matemática e de Física que somente no último momento decidiu-se pelo vestibular de Medicina. Como se verá a seguir, tanto o curso de graduação na Escola Politécnica quanto alguns estágios tiveram papel preponderante no florescimento desse meu interesse.

1.3.1 Computador é ferramenta fundamental

Foi desde os primeiros anos de Escola Politécnica que se formou a minha crença de que o computador seria uma peça fundamental para a atividade do engenheiro. E havia bons motivos para isso.
1.3.1.1 Cálculo Numérico
O encanto pelo computador começou na disciplina de Cálculo Numérico, ministrada pelo Prof. Ivan de Queiroz Barros, com algumas aulas de programação do Prof. Waldemar Setzer.
 

Engana-se quem imagina que somente muito mais tarde, nos Estados Unidos, deixei-me seduzir pelos microcomputadores. Encantava-me, já na Poli, aquele cálculo cuja utilidade se traduzia em horas de trabalho economizadas (na época utilizavam-se réguas de cálculo, calculadoras mecânicas ou, na melhor das hipóteses, eletro-mecânicas). O caráter pragmático daquele cálculo contrapunha-se, na visão do jovem, àquele outro cálculo, sisudo e hermético, cuja utilidade não conseguia vislumbrar.
 

É bem verdade que nem mesmo a diferença entre Cálculo Numérico e Programação de Computadores estava muito clara para mim, na época. Não estava clara no currículo da Escola tampouco.
 

De qualquer forma, o cálculo numérico e a programação em Fortran não se resumiram, para mim, a meros assuntos de uma disciplina, como muitos outros condenados ao esquecimento após a aprovação. Reconheci neles ferramentas valiosas a serem aproveitadas em outras disciplinas e, posteriormente, na prática profissional.
 

Utilizei aqueles conhecimentos já na disciplina de Mecânica dos Fluidos, por exemplo, para a elaboração da maioria dos relatórios de experiências.

1.3.1.2 Controle tecnológico do concreto
O Prof. Petrucci levou-me a estagiar na EPT. Entre outras atividades mais interessantes (como acompanhar o mestre na avaliação das possibilidades de recuperação da Ala XIII da Volkswagen do Brasil, destruída por incêndio), cabia ao estagiário preencher planilhas de acompanhamento do controle tecnológico e fazer cálculos de dosagem do concreto. Mais uma vez recorri à programação em Fortran (e à minha conta de estudante no computador 1130 da Elétrica ...) para calcular os pontos de curvas de Abrams.
1.3.1.3 Equações diferenciais
Num breve estágio no Agrupamento de Estruturas do IPT fui melhor introduzido às equações diferenciais (afinal aquele outro Cálculo também tinha alguma utilidade ...) e à sua resolução numérica por diferenças finitas. Acho que produzi um dos primeiros programas para a resolução de placas (utilizando ainda o computador 1130 da Elétrica).
 

Mas o estágio começou com desencontros e, infelizmente, terminou da mesma forma. Aquele trabalho não teve continuidade imediata para mim, mas sem dúvida serviu para que eu entendesse melhor a inter-relação entre cálculo, cálculo numérico e programação.
 

Uma breve passagem pela THEMAG colocou-me em contato com uma técnica de análise numérica então bastante inovadora: o método dos elementos finitos.

1.3.1.4 Os grandes programas
Como estagiário da NEGEPAR, subsidiária da Camargo Correia, pude conviver com uma equipe de primeiríssima linha, composta essencialmente por engenheiros eletrônicos egressos da Poli, todos muito interessados em computadores e na sua aplicação à Engenharia Civil.
 

Participei ativamente da colocação em funcionamento do sistema ICES. Eu, que já havia lido alguma coisa sobre o STRESS, podia então experimentar algo ainda mais saboroso: o STRUDL (além do COGO, do LEASE, do ROADS, etc.)!

1.3.2 Escrever um programa é a melhor forma de se conhecer um assunto em profundidade

Esse conjunto de experiências, com todos os percalços de desenvolvimento e implementação de programas dos mais diversos portes, me convenceu, por via da experiência prática, de que uma das melhores formas de se conhecer bem um assunto é escrever um programa sobre ele.
 

O computador, na sua rigidez dedutiva, não deixa margens para dubiedades; todo e qualquer modelo tem que ser esmiuçado até as últimas conseqüências para que o programa correspondente funcione adequadamente. Claro que eu não ouvira falar em “fuzzy logic” então.