4    APLICAÇÃO: 1982-1996 (REEXPOSIÇÃO)

4.1 Análise de Decisões: a evolução pós-doutorado (Tema 1)

4.2 Os programas para microcomputadores: Estável e Percplan (Tema 2)


4.1 Análise de Decisões: a evolução pós-doutorado (Tema 1)

4.1.1 Análise de Decisões é a melhor ferramenta para formalizar decisões

O estudo e a aplicação da Análise de Decisões acabaram por me convencer de que não existe ferramenta melhor para formalizar racional e objetivamente uma decisão.
 

O paradigma racional dessa teoria expõe claramente o processo decisório em todas as suas facetas, nuances e dificuldades:

É bem verdade que freqüentemente as dificuldades impostas pelas três últimas etapas dessa formalização são tantas que dificultam a obtenção de um resultado no sentido estrito. Não se veja aí um motivo para desânimo: a mera estruturação do problema, por exemplo através de uma árvore de decisões, tem efeito extremamente benéfico ao estimular a perscrutação de todas as possíveis alternativas de ação e, para cada uma delas, de todos os resultados visualizáveis. Convenci-me firmemente, ao longo do tempo, de que aplicar a Análise de Decisões é mais ou menos como, segundo dizem, percorrer o caminho de Santiago: a experiência mais rica está no próprio percurso e não na chegada ao destino final.

4.1.2 Análise de Decisões com Múltiplos Objetivos

As disciplinas de Análise de Riscos e Análise de Decisões, cursadas no MIT, viriam a revelar que a minimização do custo esperado, que para mim já as legitimava como fundamentadoras de critérios de segurança mais objetivos, era apenas um dos possíveis critérios de decisão. A maximização da utilidade esperada permite acomodar comportamentos não neutros ao risco e conseqüências não mensuráveis monetariamente.
 

Passei a ouvir, com alguma freqüência, a classificação das conseqüências em:

E essa acabou sendo a minha porta de entrada na Engenharia Ambiental, apesar da minha certa descomodidade no tratamento sistêmico de problemas de Engenharia -- o quê reconheço como desfavorável, pois me afasta da maioria das decisões interessantes da Engenharia. De fato, considerando-se o meu fascínio pelos modelos matemáticos, pode parecer surpreendente que essa entrada não se tenha dado pela Geotecnia Ambiental mais substantiva, com seus modelos de transporte de poluentes através do solo. Mas a explicação é simples: à época o interesse pela Geotecnia Ambiental no MIT era meramente embrionário; somente alguns anos mais tarde a preocupação ambiental viria a se refletir na mudança do nome do departamento para Departamento de Engenharia Civil e Ambiental. Em compensação, havia no então Departamento de Engenharia Civil do MIT uma plêiade notável de docentes e pesquisadores interessados na Análise de Riscos: Cornell, Vanmarcke, Veneziano, Baecher e Paté, entre outros. Eles me ensinaram a transitar com desenvoltura entre riscos monetários, ambientais e até sociais e a construir modelos de decisão com objetivos múltiplos e conflitantes (Kenney e Raiffa, 1976). Tabus como o do valor da vida humana foram substituídos por conceitos racionais e não apaixonados de custo por vida salva, no contexto de maximização do benefício obtenível dentro de um orçamento.
 

Procurei, ao longo do tempo, introduzir esses conceitos na disciplina PEF-837 - Probabilidade, Estatística, Decisões e Segurança em Engenharia Geotécnica, enfatizando a possibilidade de tratamentos quantificados e objetivos, em substituição à adjetivação e às descrições subjetivas tão prevalecentes nas ditas análises de impactos e de riscos da Engenharia Ambiental.
 

Apesar da minha já mencionada inapetência para assuntos sistêmicos, dois colegas se mostraram interessados em desenvolver pesquisas nessa área, o que me leva à conclusão de que devo ter sido convincente nas minhas perorações. O feitiço às vezes se volta contra o feiticeiro ...
 

Confesso que, no meu conservadorismo acadêmico, cheguei a questionar com ambos a validade, no nível de Doutorado, da pesquisa que eles se propunham a fazer -- o que, reconheço, não lhes deve ter sido muito estimulante. O tempo demonstraria que eu estava errado: ambos foram aprovados com distinção e louvor.

4.1.2.1 Análise de Decisões na Geotecnia Ambiental
Levada talvez pelas discussões geradas na disciplina PEF-837, a Engª Maria Lucia Galves resolveu, no início da década de 90, combinar aquelas idéias com trabalhos que ela desenvolvia, no IPT, sobre a seleção de alternativas de mínimo impacto geotécnico para o traçado de rodovias.
 

Ela logrou, inclusive, convencer-me de que a sua tese de Doutorado (Galves, 1995) deveria explorar outras ferramentas de apoio à decisão (e.g. ELECTRE I, ELECTRE II e ELECTRE III), enquanto eu era de opinião que o esforço seria melhor direcionado se concentrado na Análise de Decisões. Ao final do trabalho não foi difícil convencê-la a passar todos aqueles outros métodos para os anexos da tese. A limpidez conceitual da Análise de Decisões conquista tantos quantos se dispõem a estudá-la para uma aplicação prática.
 

Maria Lucia, eu e Maria Eugenia Boscov publicamos, em 1997, no Congresso de Hamburgo, um artigo relacionado ao tema das teses de Doutorado de ambas: “Selection of Sites for the Disposal of Industrial Wastes by Means of Multi-Objective Decision Analysis”.

4.1.2.2 Análise de Decisões na Geotecnia Social
Em novembro de 1987 uma tragédia na favela Nova República levou a Prefeitura do Município de São Paulo a deflagrar um processo de avaliação de riscos nas áreas de favelas da cidade. Praticamente todos os engenheiros geotécnicos de São Paulo e do Rio de Janeiro foram convidados a participar desse esforço.
 

Trabalhei durante quase dois anos visitando favelas e escrevendo laudos de avaliação de riscos. Cabia ao IPT consolidar os relatórios das diversas empresas e recomendar ações à Prefeitura. Pareceu-me, logo nas primeiras reuniões, que o processo de hierarquização das intervenções seria "ad hoc" e bastante subjetivo, assim como subjetivo e "ad hoc" havia sido a escolha das favelas "mais críticas" a serem incluídas no esforço de avaliação de riscos. Não raro visitava-se uma favela na qual não havia risco praticamente nenhum, enquanto a pequena distância dali havia outra visivelmente mais crítica, mas que não havia sido incluída no rol daquelas a serem avaliadas (freqüentemente devido a uma comissão de favela menos ativa ou dominada por interesses que não cabe discutir neste contexto).
 

Senti que pelo menos as decisões quanto às intervenções poderiam ser substancialmente melhoradas se utilizadas as técnicas de Análise de Decisões com objetivos múltiplos e o conceito de custo por vida salva. Aproveitei então um Encontro Técnico sobre Estabilidade de Encostas, promovido pelo Núcleo Regional de São Paulo da ABMS, para introduzir alguns desses conceitos na minha palestra, publicada sob o nome de Análise Probabilística de Estabilidade (Pasta 2, Verde 27).
 

Essas idéias despertaram o interesse do colega docente da Escola Politécnica, Celso Santos Carvalho. No IPT ele era um dos responsáveis por aquele trabalho de estabelecimento de prioridades de intervenção nas áreas de maior risco. No afã de analisar dezenas e dezenas de relatórios e de atender aos reclamos da população e da Prefeitura não havia, porém, condições para se implementar um novo método.
 

Em 1993 julguei que aquelas idéias mereciam uma exposição mais ampla e o primeiro Congresso Internacional de Gestão Ambiental (ICEM 1) pareceu-me um fórum apropriado. Publiquei então o artigo “Decision Analysis for optimized urban risk management” (Pasta 2, Verde 14). Nessa ocasião o colega Celso Santos Carvalho dava os primeiros passos na sua tese de Doutorado sobre o tema (Carvalho, 1997) e, quase simultaneamente, iniciava no IPT um projeto de avaliação de riscos em favelas em Belo Horizonte, similar àquele que havia sido desenvolvido em São Paulo.
 

Essa tese gerou um artigo, publicado no Congresso de Hamburgo da ISSMGE (Pasta 2, Verde 11): “Geotechnical risk management of urban slopes: a new approach”. Por uma decisão equivocada da ABMS, que limitou o número de páginas de cada artigo, de modo a aumentar a presença quantitativa de autores brasileiros nos Anais do Congresso, toda a pesquisa teve que ser resumida a pouco mais do que uma notícia: duas páginas.

4.1.3 A Engenharia do possível

Os trabalhos acima discutidos, de Geotecnia Social, poderiam receber o sub-título: como decidir frente a situações em que não se podem exigir os níveis de segurança usualmente prescritos.
 

Os coeficientes de segurança prescritos em normas, baseados ou não em modelos probabilistas, procuram garantir níveis de segurança consagrados internacionalmente. A realidade sócioeconômica dos países em desenvolvimento coloca freqüentemente os administradores diante de situações de fato, como as favelas, em que a única ação condizente com aqueles níveis de segurança seria a desocupação imediata. Sabe-se que essa ação geraria um problema social ainda mais grave.
 

Nessas circunstâncias só resta à Engenharia garantir aos administradores que as soluções por ela recomendadas são aquelas que tendem a maximizar, num sentido global, os níveis de segurança alcançáveis dentro de um orçamento disponível.

4.2 Os programas para microcomputadores: Estável e Percplan (Tema 2)

Esta sistematização não poderia deixar de citar as minhas realizações no campo do desenvolvimento de programas de computador, não sendo necessária sequer a equiparação do "software" à obra escrita.
 

Devo reconhecer, no entanto, que a preocupação essencial dos programas desenvolvidos não foi acadêmica (ainda que eu não deixe de ser professor e pesquisador quando coordeno uma equipe de desenvolvimento de "software").
 

Posso citar três motivos que me levaram a empreender esse desenvolvimento e que caracterizam essa produção:

É evidente que o imenso sucesso dos microcomputadores, a partir do início da década de 80, foi o catalizador da minha ação.
 

Embora os programas, que passaram a ser comercializados pelas minha empresas (Interact e, posteriormente, Geoexpert), sejam produtos comerciais, não foram desenvolvidos exclusivamente com olhos para esse aspecto. Algoritmos novos de solução de sistemas de equações lineares e de pesquisa do mínimo de funções foram exaustivamente (quase academicamente) testados e resultaram inclusive em publicações técnicas que, se não têm a densidade daquelas ligadas mais diretamente às minhas linhas de pesquisa acadêmicas, procuram atender a preocupações e anseios do engenheiro envolvido na busca de solução otimizadas para problemas práticos (Pasta 2, Verde 17, 25 e 5).
 

Meu interesse pelos modelos matemáticos estendeu-se, no MIT, para os problemas de Dinâmica dos Solos e das Estruturas, e por essa razão passei a atuar com alguma freqüência nessa área e comecei a ministrar uma disciplina de pós-graduação sobre Dinâmica dos Solos (com a colaboração de ex-alunos para os assuntos relacionados à obtenção experimental das propriedades dos solos sob solicitação dinâmica). Um desses alunos, o José Maria de Camargo Barros, tornou-se também meu co-autor no capítulo de Dinâmica do livro "Fundações: Teoria e Prática".