2    PREPARAÇÃO PRÁTICA: 1973-1975 (REPETIÇÃO)

2.1 A segurança nas escavações em couraça (Tema 1)

2.2 Banco de dados e modelos numéricos (Ponte)

2.3 Modelos matemáticos de escavações subterrâneas (Tema 2)


2.1 A segurança nas escavações em couraça (Tema 1)

Meus primeiros trabalhos publicados não se inseriam em nenhum esforço orquestrado de pesquisa, no sentido acadêmico. Foram todos eles apresentados no V Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e Engenharia de Fundações e eram, para mim, essencialmente o registro de uma experiência única: a participação na chamada Comissão Boa Vista, criada pela Companhia do Metropolitano de São Paulo para estudar e propor soluções para o problema da escavação de túneis em couraça ("shield") no centro de São Paulo, para a linha Norte-Sul do Metrô.

A Comissão era composta de técnicos da própria Companhia do Metrô, da empreiteira, da projetista e de inúmeros consultores. Eu era um dos técnicos da projetista e ficava ora no escritório do canteiro, ora na própria Companhia do Metrô. Creio que pouquíssimos dos meus colegas de turma tiveram oportunidade de, tão cedo, tomar contato com problemas tão interessantes de Engenharia Geotécnica e de ouvir discussões tão acaloradas sobre esses problemas, envolvendo os maiores nomes da especialidade no País. Sou muito grato, até hoje, ao Prof. Décio de Zagottis e ao Prof. Victor de Mello, à Promon e ao Prof. Maffei, pela oportunidade ímpar que me concederam.

O artigo sobre a instrumentação para acompanhamento da escavação é aquele com que eu sempre me identifiquei mais intensamente, não apenas por ser eu o autor principal, mas principalmente pelo fato de nele se relatar o dia-a-dia das atividades de monitoramento que eu desempenhava para a Comissão Boa Vista.

Foi meu primeiro contato -- tanto teórico quanto prático -- com o método de observação, com o conceito de incrementalismo, com o "design as you go". Nunca me ocorreu, então, que esse seria um dos assuntos centrais da minha tese de Doutorado. Lembro-me de que a Drª Evelyna Bloem Souto, então diretora da Promon, pretendeu estabelecer comigo uma correspondência praticamente diária, ao estilo daquela trocada entre Terzaghi e Peck durante a execução do Metrô de Chicago. Definitivamente não posso me queixar da desmedida confiança que se depositava em mim!

Os prazos do Congresso não permitiram que aquele artigo incluísse algumas das lições aprendidas a duras penas. Mesmo que tivesse havido, porém, é possível que elas não chegassem a ser publicadas, pois nossa cultura é avessa à discussão aberta das nossas falhas. Uma dessas lições foi o aparecimento de trincas nos afrescos da sala dos juízes do Tribunal de Alçada Civil, no Pátio do Colégio, por ocasião da escavação de um dos túneis sob o edifício. Peck (1969), em uma frase reproduzida na minha tese de Doutorado, adverte para o perigo de se pensar mais na mecânica de produção de um relatório do que no significado dos dados em termos de projeto e desempenho, de efetuar observações mais para preencher vazios do que para tentar interpretar eventos significativos. Aprendi por experiência própria que, ainda que haja um histórico de sucesso ao longo de todo um trecho de escavação já executado, o jovem engenheiro não se pode tornar menos diligente nas tarefas interpretativas. E não sirva como escusa o seu curso de Mestrado na Escola Politécnica e a disciplina de Teoria da Elasticidade, ainda que ministrada pelo Prof. Telêmaco van Langendonck!
 

2.2 Banco de dados e modelos numéricos (Ponte)

Naquela época, cheguei a preparar uma proposta para se utilizar o computador para criar um banco de dados com as leituras e observações de obra, de modo que essa informação pudesse ser interpretada de forma mais eficiente e flexível mas, acima de tudo, ser preservada contra possíveis perdas. Meus piores temores viriam a se concretizar pouco depois: uma mudança física da sede da Comissão Boa Vista ocasionaria a perda de boa parte da preciosa informação acumulada. Szalay (1980) continuava a clamar, em 1980, contra as grandes massas de dados coletadas mas não interpretadas -- ou não interpretadas a tempo (vide transcrição na minha tese de Doutorado).

Meu sempre presente interesse pelos modelos matemáticos se revela em dois dos artigos apresentados no V COBRAMSEF. Ambos tratam da simulação numérica dos efeitos da escavação em couraça sobre estruturas sobrejacentes e em ambos foi utilizado o programa STRUDL.
 

2.3 Modelos matemáticos de escavações subterrâneas (Tema 2)

No artigo em co-autoria com o Prof. Maffei foi estudado o efeito da escavação dos túneis sob o edifício da Caixa Econômica Federal. Adotou-se um modelo elástico linear de elementos finitos para representar o solo situado entre a cota da geratriz superior dos túneis e a base das fundações diretas do edifício. O solo abaixo da cota da geratriz dos túneis foi representado por molas (Winkler). A estrutura do próprio edifício não foi incluída no modelo.

No outro artigo estudou-se a resposta da própria estrutura do viaduto da Avenida Tiradentes, sobre a Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, quando submetido ao carregamento decorrente da escavação dos túneis sob ele. Para representar o solo adotou-se um modelo de molas (Winkler).

Por que, pergunto-me, não questionei à época a aplicação de dois modelos tão diferentes quanto à representação do solo e da estrutura de concreto, quando o fenômeno que se tentava simular era essencialmente o mesmo? Afinal, eu era o ponto comum mais evidente entre os dois trabalhos!

Havia de minha parte, é claro, muitas incorreções e falta de visão perspectiva. Lembro-me de que fui duramente criticado pelo Prof. Victor de Mello por escrever "capacidade de suporte" das fundações do viaduto sobre a Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, quando na verdade eu queria me referir ao coeficiente de apoio elástico, que nada tinha a ver com ruptura. Mas também me lembro, com muita alegria, que esse mesmo artigo foi o resumo de uma experiência extremamente gratificante e enriquecedora, que havia sido trabalhar em colaboração com o Dr. Mário Franco, que eu aprendi a respeitar e admirar nessa ocasião.