5    CONCLUSÃO: 1997 (CODA)

5.1 Modelos probabilistas de segurança não podem ser validados experimentalmente

5.2 Modelos matemáticos podem, em geral, ser validados

5.3 "A teoria sem a prática é inútil; a prática sem a teoria é estéril"


5.1 Modelos probabilistas de segurança não podem ser validados experimentalmente

O maior problema da aplicação dos modelos probabilistas à Engenharia Geotécnica ou, em termos mais gerais, à segurança das obras civis, reside na impossibilidade de comprovação experimental da sua validade.
 

Suponhamos que se deseje representar a resistência de um solo puramente coesivo através de um modelo probabilista. Deve-se ter em mente, em primeiro lugar, a provável utilização desse modelo: ele deverá servir, por exemplo, para o cálculo de probabilidades de ruína de obras geotécnicas nas quais esse material está presente. Posto que se almejam probabilidades de ruína baixas, importa sobremaneira a definição do extremo inferior da função de distribuição. Ainda que se acumulassem os resultados de centenas de ensaios de resistência desse solo, as extremidades da curva de freqüência acumulada continuariam mal definidas do ponto de vista estatístico. Borges e Castanheta (1971) muito bem ilustram que os mais diversos modelos probabilistas apresentam funções de distribuição extremamente parecidas nos trechos centrais mas drasticamente diferentes nas caudas. Não há como esperar, portanto, que um modelo defensável para probabilidades extremas possa derivar de um procedimento de ajuste aos dados experimentais.
 

Benjamin e Cornell (1970) mostram de forma irrefutável, no capítulo 4 do seu livro didático, que mesmo modelos relativamente simples como o de uma distribuição triangular, discretizada em três intervalos equiprováveis (probabilidade 1/3), só podem esperar uma tênue evidência experimental da sua validade: o histograma que reproduz fielmente o modelo probabilista subjacente é, inegavelmente, o histograma de mais provável obtenção experimental; no entanto, essa probabilidade de obtenção é baixa (2/9). É de 7/9 a probabilidade de não se reproduzir experimentalmente o histograma que representa o modelo real! Pode-se imaginar que com probabilidades menores, da ordem daquelas que interessam aos modelos de segurança, a situação é ainda mais crítica.
 

Creio que essa circunstância estava presente na advertência que me senti na obrigação de fazer aos meus orientados de Doutorado. Como se comprova experimentalmente que o modelo de decisão proposto por eles é superior aos outros disponíveis? Não há como fazê-lo, dado o caráter único das situações analisadas. Apenas "ad argumentandi", na hipótese improvável de que se conseguissem duas situações de início absolutamente análogas e se comparassem os resultados da aplicação do modelo proposto a uma delas e de outro à segunda, os imponderáveis e aleatoriedades são tantos nos processos naturais e sociais que a comparação desse experimento singular não poderia jamais ser invocada como indicadora da superioridade de um dos modelos.
 

Não tenhamos ilusões, portanto: a superioridade dos modelos probabilistas somente poderá ser reivindicada com base no racionalismo e não em evidências experimentais. É por essa razão que insisto com os alunos de PEF-837 que a escolha de um modelo probabilista deve basear-se antes de mais nada em considerações ligadas à física do fenômeno em estudo, à própria gênese da grandeza a ser representada por uma variável aleatória.

5.2 Modelos matemáticos podem, em geral, ser validados

A posição dos modelos matemáticos é bastante mais cômoda, pois em geral é possível testar a sua validade, o que dá, sem dúvida, uma sensação mais confortável em uma pesquisa acadêmica.
 

Por essa razão procuro nunca abandonar as pesquisas nessa área. O Engº Werner Bilfinger desenvolveu um interessante estudo, sob minha orientação, a respeito da influência da estanqueidade do revestimento no projeto de túneis. Na sua dissertação de mestrado ele analisou numericamente a percolação para escavações subterrâneas e discutiu vantagens e desvantagens de se drenar internamente um túnel, em vez de tentar impermeabilizá-lo.
 

Terminado o mestrado, o Werner está iniciando uma pesquisa, visando ao Doutorado, sobre o comportamento de aterros estaqueados. Mais uma vez, vamos dirigir nossa atenção para os modelos de análise dessa técnica construtiva.
 

A Engª Maria Eugenia Boscov, por outro lado, levou-me a estudar transporte de poluentes, o que me permitiu começar a conhecer a Geotecnia Ambiental também pela faceta dos modelos matemáticos (e não apenas pela já discutida, da gestão de riscos ambientais). Sua tese de Doutorado gerou um artigo que publicamos — apesar das vicissitudes impostas pelo número muito limitado de páginas — no Congresso de Hamburgo (Pasta 2, Verde 12).

5.3 "A teoria sem a prática é inútil; a prática sem a teoria é estéril"

No encerramento do SEFE III, em novembro de 1996, o Prof. Milton Vargas enunciou esse princípio. O livro "Fundações: Teoria e Prática" acabava de ser lançado e eu me lembrei dos dois anos em que, como editor, tive que conciliar autores mais voltados à teoria com autores mais voltados à prática. E pensei no muito que aprendi com essa experiência.
 

Aquela frase resume, a meu ver, a essência do bom exercício na profissão de Engenharia. Está aí, também, a razão dos tão freqüentes mal entendidos entre praticantes e acadêmicos. Não se fará boa Engenharia sem o respeito mútuo implícito nesse princípio. E, a meu ver, nossa função numa Escola de Engenharia é exatamente preparar profissionais conscientes desse fato e não acadêmicos teorizadores que desprezem a prática.