PREFÁCIO

Sistematizar significa agrupar em um corpo de doutrina, tornar coerente com determinada linha de pensamento ou ação.

O fato de haver dois temas centrais a serem discutidos em suas diversas implicações na minha obra constituiu-se em tentação irresistível para estruturar esta sistematização como uma sonata bitemática. Essa analogia, imperfeita como qualquer outra, dá-me todavia a oportunidade de explicitar um aspecto do meu dia-a-dia que sempre foi essencial para a minha felicidade plena: a música.

Aqueles que me conhecem de perto sabem que tenho uma certa frustração por me faltar talento para ela - cerca de cinco anos de aprendizado de piano na Escola Magda Tagliaferro não puderam reverter essa realidade. Em homenagem aos compositores e intérpretes que admiro, permiti-me a liberalidade de manter-me aqui também próximo dela, se não no conteúdo, ao menos na forma. O leitor que se preocupar em seguir as indicações entre parênteses nos títulos de primeiro e segundo nível reconhecerá a estrutura da forma de sonata.

As datas nos títulos são indicativas da cronologia dos eventos mais significativos. Não devem ser entendidas, porém, como compartimentos estanques, que encerram tudo o que produzi naquele período (ou só o que produzi naquele período). A essência da sistematização não pode ser a cronologia: procurei explicitar as relações entre meus diversos trabalhos sempre que me pareceu relevante fazê-lo; a ordem cronológica mais rigorosa está disponível no memorial.

A tarefa mais difícil de escrever este texto foi manter-me coerente com as idéias que tento transmitir aos meus orientados. Têm sido freqüentes, na Escola Politécnica da USP, dissertações e teses com mais de duzentas páginas. Costumo afirmar que numa época em que nossos textos têm que disputar espaço, na preferência dos leitores, com milhares de páginas que se publicam mensalmente (para falar somente em revistas técnicas e anais de congressos), com a avalanche de informações disponíveis na Internet, com o apelo audio-visual dos meios de comunicação não impressa, é essencial ser breve, preciso e, na medida do possível, interessante.

Muitas vezes, ao ser confrontado com um trabalho de mais de trezentas páginas, eu afirmei que não conseguia imaginar que, no plano acadêmico, eu pudesse ter mais do que umas cem páginas capazes de despertar o interesse de uma audiência técnica.

Sem o pretender, estava daquela forma preestabelecendo as condições de contorno desta sistematização crítica: concisão (menos de cem páginas), linguagem precisa mas, ao mesmo tempo, tentando ser de leitura instigante. Este último ponto me levou a extrapolar ligeiramente a mera sistematização crítica, permitindo-me também narrar alguns fatos que considero relevantes para justificar tanto o caráter da minha produção escrita quanto as críticas de que ela é passível, e que procuro apresentar. Outros fatos interessantes mas que guardam relação menos direta com a minha obra estão relatados no memorial.

Em nome da concisão evitei reproduzir equações, figuras e tabelas já publicadas, posto que os trabalhos publicados estão contidos em versão integral na documentação comprobatória do memorial.

As pastas, cores e números de documentos citados neste texto referem-se a trabalhos de minha autoria (ou co-autoria) arquivados nas respectivas pastas de Documentos Comprobatórios do Memorial Circunstanciado.

A partir do dia 30 de março de 1998 tanto o texto desta Sistematização Crítica quanto o Memorial Circunstanciado estarão disponíveis para consulta na Internet no endereço:

http://www.lmc.ep.usp.br/people/whachich/ld