PALESTRA : Palestra Pós-Graduação Engenharia Civil - EPUSP

13/março/2001

Desejo, antes de mais nada agradecer à Coordenação da Pós-Graduação pela oportunidade de me dirigir aos estudantes de pós graduação de engenharia civil.

Falar aos jovens é reviver a mocidade.

Conviver com os jovens é ver a renovação ocorrendo, é ver a própria revolução em andamento.

Mormente nestes tempos de grandes mudanças, é uma oportunidade para vivenciar os novos paradigmas que vão se estabelecendo, e reduzir o conservadorismo que a conveniência e a comodidade sugerem a todo instante.

Desejo preliminarmente chamar a atenção de vocês para as mensagens subliminares que este momento sugere:

  1. O próprio encontro em si revela a preocupação dos seus organizadores para com a pós-graduação, de proporcionar um encontro entre as mentes abertas e desafiantes dos estudantes e a experiência vivida pelos professores, entre os quais, este palestrante. Esse desejo de formar "escola", que extrapola a transferência de informações pura e simples, e induz a uma oportunidade de reflexão. Percebam a preocupação e o esforço pela integração.
  2. É um encontro promovido pela engenharia civil como um todo e não por um Departamento específico. A engenharia é um todo e por mais que venhamos a ser especialistas, não há como ignorar a necessidade da visão sistêmica. O profissional que se perde na especialidade, não olhando o todo, está condenado a análises parciais, num contexto pobre e correndo o risco de não servir à sociedade.

A engenharia civil é de todas as engenharias a mais ligada ao ser humano. Nas suas várias formas de transporte, educação, saúde, meio ambiente, saneamento, energia, abastecimento, etc., se constrói para o ser humano. São dimensões não apenas físicas, mas também psicológicas e sociais.

Esta dimensão humana propõe, melhor, obriga a uma visão humanística, de cidadania, que precisa ser construída a todo instante, na sala de aula, na leitura dos jornais, nas discussões com os colegas.

A construção da cidadania se faz pela leitura e pela discussão política, pela seriedade nos estudos e no exercício profissional e pela expansão do conhecimento dos temas humanísticos.

É por isso que a engenharia se compõe de coisas tangíveis, possíveis de mensuração e coisas intangíveis. A tangibilidade é a essência do que torna a nossa profissão capaz de dimensionar fisicamente. A intangibilidade é a responsável pela criatividade. Esta, a criatividade, considera o ser humano e a nossa capacidade de construir para uma vida melhor; aquela, empresta economia e eficiência à criatividade.

Recentemente, no Instituto de Engenharia, por ocasião do Dia do Engenheiro tive oportunidade de fazer algumas observações sobre a tecnologia que, gostaria de repetir para ilustrar esta palestra.

A Bíblia, no seu livro Gênesis, capítulo 2, versículos 15 a 17, conta a história do ser humano:

" Tomou pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar

E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás."

Passava ele pois ao ser humano esta mensagem: "seja puro, não queira conhecer o bem e o mal. Estes dois entes são indissociáveis e você não poderá administrar um deles sem a presença do outro". Ao ser humano mais valeria se ele não buscasse o conhecimento. Isso poderia significar a sua morte. Porém, parece que o germe da angústia, da curiosidade e da tentação já habitava o ser humano e a criatura desobedeceu o criador.

A mitologia grega conta a história da humanidade de uma forma mais sofisticada.

Os deuses gregos já conviviam com o bem e o mal. Eles tinham sentimentos de vingança, raiva, amor, de tolerância, misturavam-se aos seres humanos, casavam-se às vezes com eles...

Na criação do mundo, Zeus encarregou os irmãos Epimeteu e Prometeu de criar os seres. Epimeteu, com argila e água moldou todos os seres. A cada um atribuiu dons: coragem, força, sagacidade... Quando chegou a vez do ser humano, Epimeteu gastara, com prodigalidade, todos os dons preciosos. Guardara apenas os maus, dentro de uma caixa.

Perplexo, recorreu ao seu irmão Prometeu que, com a ajuda de Minerva, subiu ao céu e acendeu sua tocha no carro do sol, trazendo o fogo celeste para tocar essa nova criação, tornando-a superior a todos os animais.

A primeira mulher chamava-se Pandora e fora feita no céu, com a contribuição de todos os deuses: Vênus deu-lhe a beleza, Mercúrio a argúcia e a persuasão, Apolo a música, Minerva a inteligência, etc (todos os dons que as suas descendentes tem até hoje, destacando-se a beleza, a argúcia e a capacidade de conduzir os homens).

Zeus então presenteou Epimeteu com a mulher e reservou a Prometeu um castigo, pela ousadia de buscar o fogo celeste.

Pandora, movida por grande curiosidade de saber o conteúdo da caixa, abriu-a e liberou todos os males e pragas que ali se encontravam.

Apressou-se a fechar a caixa, mas infelizmente quase todos já haviam escapado. Apenas a ESPERANÇA, retardatária, ficou presa, razão pela qual, enquanto a tivermos, diz a mitologia, nenhum mal será capaz de nos destruir totalmente.

A Prometeu, Zeus deu como castigo ser acorrentado em um rochedo do Cáucaso, onde diariamente um abutre lhe comia o fígado, que se restaurava durante a noite.

Desde o instante em que o ser humano ganhou o direito de buscar o conhecimento, ganhou o castigo da busca eterna. Ganhou também a ansiedade desse conhecimento, sem o qual já não consegue viver. Vivemos o suplício de Prometeu.

Intermediário entre o conhecimento e o uso que dele se faz, estamos nós, os profissionais. É a tecnologia capaz de transformar o conhecimento em riqueza e bem estar.

Ela participa do nosso dia a dia de uma forma tão integrada com a nossa vida, que quase não nos damos conta da sua gradativa agregação.

Convivemos com o futuro na sua forma de "science fiction" sem estranhar, porque ele rapidamente se transforma em realidade, muito mais depressa do que poderíamos esperar.

Estamos caminhando para uma utopia? Está a tecnologia construindo a sociedade do bem estar?

É verdade que o conhecimento é capaz de chocar os nossos paradigmas e de criar o dilema do bom e do mal uso.

O fogo, o cobre, o ferro, que a tecnologia foi capaz de extrair dos minérios, foram ferramentas de progresso mas também armas de guerra, violência, roubos.

A tecnologia atômica debutou com a terrível destruição de duas cidades japonesas e ameaças para toda a humanidade durante a guerra fria. Mas é também a tecnologia atômica responsável pelo diagnóstico e cura de doenças, proteção de alimentos e aplicações industriais.

A química é usada para o bem e para o mal.

O conhecimento bacteriológico é fundamental para o controle de epidemias e cura de doenças. É também esse conhecimento, a base da guerra bacteriológica.

A tecnologia está inevitavelmente ligada a danos ambientais.

A tecnologia cria emprego e desemprego.

A tecnologia não foi capaz de resolver o problema da fome. Quem não se lembra da tragédia de Biafra e das fotos chocantes dos jornais mostrando crianças famintas sugando os seios murchos de mães esqueléticas. Ainda agora a África mostra essas tragédias.

A biotecnologia abre, perante nossos olhos uma perspectiva de um mundo sem fome e sem doenças.

Os alimentos transgênicos, devidamente controlados pela sociedade – e temos instituições para isso - serão a redenção de bilhões de famintos. A medicina e a farmácia molecular abrem uma enorme perspectiva para a saúde humana.

Porém, na medida em que a genética decifra o livro da vida, novas tecnologias se criam para facilitar a manipulação de gens. E cada vez a custo mais baixo, ao alcance de laboratórios mais simples. Até agora a manipulação das tecnologias destruidoras eram circunscritas ao Estado ou a grandes empresas, pelo seu elevado custo. Na genética o gênio do mal toma uma forma democrática: uma tecnologia potente e de baixo custo. E todas as conseqüências que disso podem advir.

Como cuidar para que a tecnologia não suplante a sensibilidade humana? Enorme desafio que exigirá o esforço de todos nós.

Importantes ações cabem a nós universitários, notadamente na educação.

Na educação, o Brasil tem feito um grande esforço. Temos hoje 2,4 milhões de estudantes no nível superior, contra 1,4 milhões em 1980: um crescimento de 71% em 20 anos. Porém pequeno para as nossas dimensões. Esse número representa pouco mais de 10% da população de jovens em idade entre 20 e 24 anos. O que nos coloca em franco confronto com os países desenvolvidos, onde já se começam a estabelecer regras para a obrigatoriedade do ensino superior. E isso é visto com uma visão de cidadania e não de mercado de trabalho.

Vale lembrar que hoje o nosso ensino médio e fundamental conta com mais de 35 milhões de estudantes. Com todos os descontos que se queira fazer, nos próximos 10 anos, um enorme contigente de alunos estará batendo às portas das Universidades, exigindo respostas.

Vocês constituirão a base dessa expansão na qualidade de docentes.

Precisaremos ao lado desse esforço de ampliação, um segundo esforço para manter a qualidade do ensino. Sempre que se alarga a base do ensino corre-se o risco de perda de qualidade.

Vocês verão que a Escola Politécnica irá procurar manter um curso de alto padrão. Nada que a dedicação e o esforço de cada um não torne o curso perfeitamente absorvível, mas implica nessa dedicação e nesse esforço.

É importante que não se confunda a qualidade do curso como exigência implicante do professor, mas sim com a importância de um curso de referência. Sempre que se estabelece um programa, não apenas no ensino, mas em qualquer atividade, é preciso que se tenha referenciais para balizar e dirigir esse programa.

Com isso se faz também a vocês um convite para que ao terminar o curso e retornar às suas atividades, levem um modelo de rigorismo científico e tecnológico.

Por isso, não confundam professores exigentes com professores não razoáveis. Vou usar um conceito que ouvi de um colega: O professor tem que ser justo e bom. É preciso que se dê um sentido amplo aos conceitos de justo e bom, pois o compromisso do professor vai além do aluno, ele se faz principalmente com a sociedade, porque buscamos que os nossos herdeiros tenham seriedade e competência.

Mais, buscamos profissionais que sirvam a sociedade e não que se sirvam dela. Quando assim se procede, a sociedade evolui como um todo e todos se beneficiam. Acreditar que a evolução pessoal possa ocorrer em detrimento dos outros é, no mínimo, desonesto.

Deixem-me fazer uma previsão de como será a carreira de vocês.

Na mitologia grega há uma figura interessante, a de Faetonte, que é relatada por Ovídio. Faetonte sempre ouvira dizer que seu pai era Apolo, o condutor do carro do sol, mas era desacreditado pelos seus amigos. Apelou para sua mãe Climene então e esta lhe explicou o caminho, sempre em direção ao Leste, para chegar até a cachoeira onde Apolo ficava e onde dormiam os cavalos do carro do sol. Maravilhado, Faetonte solicitou ao pai autorização para dirigir o carro. Após muito negar, Apolo acabou por ceder, mas fez diversas advertências quanto à força dos cavalos e a correria desenfreada. Sua carreira, dizia Apolo, será assim: primeiro uma subida violenta, na qual você precisará se segurar bem senão poderá cair, a seguir você estará numa altura vertiginosa e passará muito perto de constelações, como o escorpião, a ursa, a serpente e você precisará passar incólume, depois seguir-se-á uma descida desenfreada, para a qual se você não estiver preparado poderá ser atropelado pelos próprios cavalos.

Na subida e nas alturas você encontrará muitas dificuldades, todas prontas a impedir sua trajetória. Encontrará também muitos amigos. Saiba diferenciar os dois e privilegiar os que merecem. Lembre-se que o seu sucesso será tanto maior quanto mais espaço der aos seus amigos e quanto mais ajudá-los.

É muito caro para mim e epitáfio na laje do túmulo de Andrew Carnegie, fundador da Bethlem Steel: "Aqui jaz um homem que soube se cercar de outros melhores do que ele".

Para conviver com as alturas é preciso resistir à vertigem, ao orgulho, ao próprio ego. Várias constelações estarão ao seu lado: escorpião, ursa, serpente e a pior de todas: você mesmo.

A descida será também difícil, e esta dependerá só de você.

Planeje bem para que a sua descida seja feliz. Ainda é cedo para que você se preocupe demais com ela, mas o seu planejamento deve começar agora, porque ela dependerá do que você for quando estiver nas alturas. Cultive a sua pessoa, para que você seja sempre você mesmo.

Argos é outra figura mitológica cuja atuação vale lembrar. Era um vigia de Zeus e tinha 100 olhos, que nunca dormiam ao mesmo tempo. Os olhos se justapunham aos pares:

E assim você poderá avaliar todas as pessoas que encontrará ao longo da vida, inclusive você mesmo.

Na história que lhes contei, Faetonte não tinha se preparado, não foi capaz de conduzir os cavalos e despencou das alturas.

No mundo moderno a competência é o diferencial dos engenheiros. Por isso o estudo permanente, a educação continuada, cada vez mais exige de vocês. O mundo da esperteza, numa sociedade organizada cede para o mundo da competência.

Freqüentemente vocês serão chamados, na profissão, para uma tomada de posição entre os dois lados da tecnologia. Será uma decisão solitária e por isso amarga. Mas lembrem do seu compromisso com a sociedade.

Vocês são jovens e serão confrontados com palavras mágicas:

Individualismo e Coletivismo: Lembrem-se que vocês são agentes da sociedade e a solução do individual deve sempre se submeter ao coletivo. Algumas vezes isto poderá machucar. Será preciso muita coragem.

Liderança e Consenso: A busca de uma solução de interesse coletivo implica na busca do Consenso? Dizia Margareth Tatcher, Primeira Ministra da Grã Bretanha que a liderança é a negação do Consenso. É preciso que se tenha claro quando é o momento de contrariar a maioria porque um novo paradigma precisa ser estabelecido. Buscar o Consenso é necessário, mas a liderança obriga por vezes buscar novos caminhos. Julgar o equilíbrio do conservadorismo com o progressismo pode ser muito difícil. Consenso e liderança caminham sempre juntos, mas obedecem à sabedoria.

Não confundam, Conhecimento com Sabedoria. Conhecimento, nós professores, estaremos lhes passando a todo instante, mas Sabedoria exige observação, reflexão, bom senso, ter a dimensão humana.

Isso tudo me traz à mente um provérbio chinês que, pela sua simplicidade choca: o da xícara de chá. Uma xícara cheia não receberá mais chá, apenas entornará; você só consegue colocar chá em uma xícara que não esteja cheia.

Vocês que são jovens e aqueles que ainda não estão com a xícara cheia, fiquem atentos para que ela sempre possa receber mais. A impáfia, a arrogância, o ser "dono da verdade" são as melhores maneiras de entornar o chá. Não deixem nunca que ele se derrame. Não jogue fora a sabedoria.

Por isso mesmo a crença nos jovens é um fator de estímulo a nós professores. O fato de os jovens terem menos amarras é que permite o inconformismo. Á medida que envelhecemos tornamo-nos cada vez mais, presas das regras, das leis, dos costumes que só trazem como resultado a aceitação, o conformismo , a perda de criatividade, o conservadorismo. Lembro a vocês que as maiores mudanças do mundo foram feitas por jovens, quer na idade, quer no pensamento. Os "velhos" procuram manter as coisas como elas estão, até porque já testaram, estão acostumadas com elas ou usufruem privilégios.

Permitam-me um pequeno parêntesis para uma pequena digressão:

Na idade média e até o século XVII, o Vaticano tinha seus próprios e exclusivos compositores. Alegri era um deles.

Havia na ocasião uma curiosa lei do Vaticano, que não permitia aos seus compositores exclusivos, que escrevessem a partitura da música. A razão disso era garantir direitos autorais ou exclusividade para os poucos ouvintes.

Numa ocasião em que a peça Miserere de Alegri foi apresentada, um jovem estava presente. Seu nome: Wolfgang Amadeus Mozart.

Ao final da audiência, Mozart foi para casa e escreveu a partitura.

Graças a ele hoje a conhecemos e podemos desfrutar essa maravilhosa composição. Foi a sua rebeldia, o seu inconformismo que nos possibilitou. Viva o inconformismo.

São as mentes jovens que possibilitam a criação dos novos paradigmas e reorientam a sociedade. Sejam sempre jovens. Não deixem o tempo envelhecê-los. Cada um de vocês merece um encontro com as estrelas.

Mas não deixem também o tempo torná-los intolerantes. Se vivemos num mundo em mudanças, novos e velhos paradigmas convivem. Mais uma vez será necessário sabedoria para não envelhecer e não ser intolerante.

A posição de ator social que nós ocupamos e os estimulantes desafios já referidos, trazem, no seu bojo, uma recompensa, que é lembrada pela frase dos antigos navegadores portugueses, na epopéia dos descobrimentos, e popularizada por Caetano Veloso: "Navegar é preciso; viver não é preciso". Assim devemos ser nós: é preciso servir à sociedade, senão não vale a pena.

Foi assim também que se expressou Fernando Pessoa, ao descrever a aventura das descobertas e que poeticamente retrata, o que prosa só consegue por longas digressões.

Permitam-me encerrar este agradecimento a todos os amigos aqui presentes lendo esta poesia de Fernando Pessoa a guisa de figura de imagem, e que utilizei também naquele discurso no Instituto de Engenharia. Creio que ela reflete bem a dualidade do sofrimento e da recompensa.

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Muito Obrigado.